Faça-nos um favor

H. Holden Thorp (editor-chefe da revista Science)

13/03/2020

“Faça-me um favor, apresse isso, apresse isso.” Isso foi o que o presidente dos Estados Unidos Donald Trump, disse a National Association of Counties Legislative Conference (uma espécie de associação nacional de municípios do país), relembrando o que ele já havia dito aos executivos farmacêuticos sobre o progresso em direção a uma vacina para a síndrome respiratória aguda-coronavírus 2  (SARS-CoV-2), o vírus que causa a doença coronavírus 2019 (COVID-19). Anthony Fauci, o líder de longa-data da National Institute of Allergy and Infectious Diseases (Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas), tem recorrentemente informado ao presidente que o desenvolvimento de vacinas levará pelo menos um ano e meio – a mesma informação transmitida pelos executivos farmacêuticos. Aparentemente Trump achou que o fato de repetir o seu pedido iria mudar o resultado.

A China vem sendo justamente criticada por suprimir tentativas de cientistas de reportar informações durante o surto. Agora, o governo dos Estados Unidos está agindo de forma similar. É inaceitável o fato de que Fauci e outros cientistas do governo tenham sido informados que todos os comentários públicos precisem de aprovação do vice presidente Mike Pence. Este não é o momento de alguém que nega evolução, mudanças climáticas, e os perigos do fumo, moldar a mensagem para o público.  Ainda bem que Fauci, Francis Collins (diretor do U.S National Institutes of Health –NIH –  Instituto Nacional de Saúde), e seus colegas distribuídos em várias agências federais estão dispostos a resistir e gradualmente estão transmitindo a mensagem.

Enquanto cientistas estão tentando compartilhar informações sobre a epidemia, o governo bloqueia esses fatos ou os contradizem. Taxas de transmissão e de letalidade não são medidas que podem ser modificadas por meio de vontade ou de uma apresentação enérgica e demonstrativa. O governo tem afirmado recorrentemente – assim como na semana passada – que a transmissão do vírus está sob controle nos Estados Unidos, porém está claro pelas evidências genômicas que a disseminação através da comunidade está ocorrendo no Estado de Washington e além. Este tipo de distorção ou negação de fatos é perigosa e provavelmente contribuiu para a resposta lenta do governo federal. Após três anos de debates sobre se as palavras do governo importam ou não, as palavras são agora claramente um caso de vida ou morte.

Mesmo que os passos necessários para que uma vacina seja produzida possam ser mais eficientes, muitos desses dependem de processos biológicos e químicos que são essenciais. Então o que o presidente disse foi praticamente o mesmo que dizer “Faça-me o favor, apresse esse motor de dobra espacial.”

Eu não espero que políticos conheçam as equações de Maxwell para eletromagnetismo ou a reação de Diels-Alder (apesar de eu poder sonhar com isso). Mas, você não pode insultar a ciência quando não gosta dela e de repente insistir em algo que a ciência não pode dar sob demanda. Nos últimos quatro anos o orçamento do presidente Trump apresentou cortes consideráveis na ciência, incluindo cortes em financiamento para os Centers for Disease Control and Prevention (Centros de Controle de Doenças e Prevenção) e a NIH. Com a desvalorização que este governo demonstrou em relação à ciência da Environmental Protection Agency (Agência de Proteção Ambiental), da National Oceanic and Atmospheric Administration (Administração Oceânica e Atmosférica Nacional – NOAA), e com a nomeação de um diretor para o Office of Science and Technology Policy (Órgão de Políticas Científicas e Tecnológicas) somente para apoiar os objetivos políticos, o país tem vivido praticamente quatro anos agredindo e ignorando a ciência.

Agora, de repente o presidente precisa da ciência. Mas, os séculos que que passamos esclarecendo princípios fundamentais que governam o mundo natural – evolução, gravidade, mecânica quântica – envolveram a construção de bases de conhecimento para sabermos o que podemos ou não fazer. Foi provado ao longo dos anos que os processos com que os cientistas acumulam e analisam evidências, aplicam raciocínio indutivo e reportam seus achados para uma análise crítica feita por seus pares, levam ao conhecimento robusto. Estes processos estão sendo aplicados à crise do COVID-19 através de uma colaboração internacional que tem se dado em uma velocidade sem precedentes. A revista Science publicou dois novos artigos no início deste mês sobre o SARS-CoV-2 e outros mais estão a caminho. Porém os mesmos conceitos que são utilizados para descrever a natureza são utilizados para criar novas ferramentas. Então, pedir por vacinas e distorcer ciência ao mesmo tempo é muito contraditório.

A vacina precisa ser feita de acordo com as bases científicas fundamentais. Tem que ser possível de ser manufaturada, tem que ser segura. Isso pode levar um ano e meio ou até mais tempo. Executivos farmacêuticos apresentam todos os incentivos para o desenvolvimento rápido – pois eles irão vender as vacinas – mas, ainda bem que eles também sabem que não se pode quebrar as leis da natureza para se chegar ao resultado.

Talvez a gente tenha que estar feliz. Há três anos atrás o presidente declarou o seu ceticismo em relação à vacinas e tentou lançar uma força-tarefa anti-vacina. Agora ele de repente ama vacinas.

Mas, faça-nos um favor, senhor presidente: se você quer uma coisa, comece a tratar a ciência e seus princípios com respeito.

Tradução: Isabela Lima

Publicação original:
Science 13 Mar 2020. Vol. 367, Issue 6483, pp. 1169.DOI: 10.1126/science.abb6502

Disponível em: https://science.sciencemag.org/content/367/6483/1169.full

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