Foi “abatido” na contramão, atrapalhando o trânsito, mas garantindo uma euforia matinal

Angélica Fontella

20/08/2019

Em um país onde menos da metade dos estados produz dados transparentes sobre a resolução de homicídios, o trabalho das Polícias Militares (PM) se confunde com a atuação de um carrasco. Para as forças policiais, a execução da pena de morte é mais do que autorizada – embora seja formalmente ilegal -, é celebrada, recompensada e raramente questionada. Ratificando o óbvio: isso é precisamente o oposto de defender a vida.

No calor dos acontecimentos desta manhã, no Rio (RJ) – quando um ônibus da empresa Galo Branco (Jardim Alcântara x Estácio) foi sequestrado por um homem, posteriormente “abatido” (para usar a expressão do governador do estado) pela PM – é importante lembrar que vivemos em um mundo em que o porta-voz da corporação fala à imprensa, depois da morte do sequestrador: “Essa é a polícia que queremos ver”. Será? A lógica que comanda a PM é uma lógica militar, desenvolvida para a guerra, para o matar ou morrer. Contudo, nem os próprios policiais querem ser treinados para isso: uma pesquisa de 2014 revelou que mais de 70% dos policiais brasileiros defendem a desvinculação entre polícia e Exército.

Em um exemplo perfeito de duplipensar, outros termos do governador merecem destaque: após revelar que vai “promover os atiradores por bravura”, ele explica que “foi uma ação que mostra quanto a nossa polícia militar é preparada para preservar vidas”. Garantir e celebrar o “abate” no lugar de promover a investigação e a prevenção de crimes – ou seja, em vez de usar a inteligência – não é estratégia de segurança pública, é estratégia de extermínio em massa que, eventualmente, pode se tornar indiscriminado (embora seja indiscutível que, nesse momento, negros pobres são os que mais morrem no Brasil).

Nesse ínterim, seguimos com uma imprensa que, em vez de questionar esse léxico empregado pelas figuras de autoridade ou a militarização da polícia, acaba abraçando todo esse raciocínio letal. O costumeiro, para a grande mídia, é precisamente reforçar o discurso da guerra entre vilões (“bandidos”/”traficantes”/”marginais”) x heróis (polícia): as imagens do “abate” estão aí repercutindo, bem como “os enormes congestionamentos”, como uma pequena demonstração disso. Esse discurso simplifica o entender do mundo, contribui para a construção de estereótipos e também acaba autorizando a celebração de mortes. Ratificando o óbvio novamente: celebrar o “abate” não é, nem nunca será defender a vida.

*Na imagem, ônibus da empresa Galo Branco que circulava na década de 1970 / Facebook: grupo Memória de São Gonçalo

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