Lista de filmes distópicos

Angélica Fontella

30/09/2018

Além dos maravilhosos filmes que indiquei no Passadorama #04 Distopia é ficção? – Eles Vivem (John Carpenter, 1988 – Filme); A Estrada (John Hillcoat, 2009 – Filme); Idiocracia (Mike Judge, 2006 – Filme) -, nossa adorada produção permitiu que eu publicasse uma lista de filmes distópicos. Por que essa lista existe? Quando estava me preparando para o programa e selecionando minhas indicações culturais, de repente, me vi com uma lista de quase 40 filmes sobre o tema…

Sem mais delongas, segue a lista, um pouco reduzida, mas toda comentada:

* O Juiz (1995)  / Judge Dredd (título original) – Diretor: Danny Cannon

Sinopse: Em um futuro distópico, Joseph Dredd, um famoso Juiz (um tipo de policial que tem o poder de julgar e condenar qualquer pessoa que cruze seu caminho) é condenado por um crime que não cometeu.

* Dredd: O juiz do apocalipse (2012)  / Dredd (título original) – Diretor: Pete Travis

Sinopse: Em um violento futuro distópico, em uma cidade futurística onde policiais têm autoridade para agir como juizes e executores de penas, um time tático é treinado para desarticular a gangue que trafica a droga SLO-MO.

*Minority Report: A Nova Lei (2002) / Minority Report (título original) – Diretor: Steven Spielberg

Sinopse: No futuro, uma polícia especial é capaz de prender assassinos antes que eles possam cometer os crimes. Tudo corre “bem”, até que um oficial se vê acusado de cometer um futuro assassinato.

Comentário:

O sonho daqueles que apoiam “soluções” inomináveis para a segurança pública. Vejam, por estes filmes, como armas e polícia são capazes de resolver todos os nossos problemas! #not Também colocam em cheque – pelo menos, no remake de Dredd – a política indiscutivelmente falida (até o FHC diz isso…) da “Guerra às drogas”.

* Expresso do amanhã (2013) / Snowpiercer (título original) – Diretor: Joon-ho Bong (as Bong Joon Ho)

 

snowpiercer 2.2.2.2.

Sinopse: Em um futuro não muito distante, um experimento para contenção das mudanças climáticas matou toda a vida do planeta. Sobreviveu quem conseguiu embarcar no trem, programado para dar voltas no globo, ininterruptamente, o Snowpiercer, onde aparece um novo [ha-ha-ha] sistema de classes.

Comentário:

É basicamente como vivemos hoje, mas ninguém aceita/enxerga/admite. Leiam essa matéria sobre o que as pessoas pobres dos interiores do Brasil têm comido: https://www.nytimes.com/2017/09/16/health/brasil-junk-food.html, sim, isso é equivalente a comer *spoiler*.

* Mad Max: Estrada da Fúria (2015)  / Mad Max: Fury Road (título original) – Diretor: George Miller

Sinopse: Em uma terra devastada e extremamente árida, num futuro pós-apocalíptico, uma mulher se rebela contra um governante tirano, na busca por sua terra natal, com a ajuda de um grupo de prisioneiras, de um psicopata fanático pelo sistema tirano e de um andarilho chamado Max.

Comentário:

Apenas aguardem, não vai demorar muito…

No ‘Planeta Água’, três em cada dez pessoas não têm acesso a uma fonte segura de água potável e 80% dos esgotos são despejados sem tratamento no ambiente

+

Enquanto as grandes florestas da Amazônia forem retalhadas e queimadas, enquanto for permitido que as terras protegidas dos povos tribais e indígenas sejam invadidas, nossas metas climáticas permanecerão inalcançáveis. E a p*rra do nosso tempo vai ter esgotado. Essa é A verdade“.

* A decadência de uma espécie (1990)  / The handmaid’s tale (título original) – Diretor: Volker Schlöndorff (Volker Schlondorff)

Sinopse: Em um futuro distópico, um sistema tirano político-religioso de direita obriga mulheres jovens a serem escravas sexuais por serem férteis, uma condição que se tornou rara. Com base no livro O conto da aia (1985) da escritora canadense Margaret Atwood.

Comentário:

Bem, estamos em 2018 e ainda acham que nosso corpo pertence a todos em grande parte do globo. Estupro nem sempre é visto como crime. Educação sexual nas escolas é “doutrinação gayzista” (sim, esses itens estão relacionados – como uma criança vai compreender se está sofrendo abuso ou não se ela nem sabe o que é isso? Leiam: http://quenemmocinha.com/o-que-e-educacao-sexual/). Aliás, determinadas mulheres “merecem ser estupradas”, dizem por aí.  Vocês realmente acham que estamos muito longe da história de Atwood?

* Interestelar (2014)  / Interstellar (título original) – Diretor: Christopher Nolan

Sinopse: Um time de exploradores viaja por um “buraco de minhoca” no espaço, para tentar encontrar uma forma para a humanidade sobreviver.

Comentário:

Sinopse alternativa: Já estragamos o nosso território aqui, a água está toda suja, praticamente irrecuperável, demoraria muito tempo para limpar… o solo está árido, infértil… demoraria muito tempo para recuperar… os animais são tratados como se estivessem a nossa disposição, nós decidimos quando matá-los, comê-los, para onde devem ser enxotados e de que maneira eles devem viver, o que os leva a extinção… O que podemos/devemos fazer? Já sei!!! Vamos procurar um outro lugar, mais ou menos igual, colonizá-lo e degradá-lo completamente, da mesma maneira que fizemos com a Terra, que acham? Ótima ideia! Partiu!

¯\_(ツ)_/¯

Eu não tenho dúvidas de que esse plano já está em curso.

* Blade Runner, o caçador de andróides (1982) / Blade Runner (título original) – Diretor: Ridley Scott

Sinopse: Um blade runner deve perseguir e exterminar quatro replicantes que roubaram uma nave no espaço e conseguiram retornar à Terra em busca de seu criador. Com base na obra de Philip K. Dick.

* Blade Runner 2049 (2017) (título original) – Diretor: Denis Villeneuve

Sinopse: Uma descoberta de um jovem blade runner o leva à procura do veterano Rick Deckard, que está desaparecido há trinta anos. Com base na obra de Philip K. Dick.

Comentário:

Vamos lá! Nos anos 1980, tínhamos robôs humanoides representando o sexo feminino e mulheres humanas que se vestiam com base no guarda-roupas sonhado por um homem hétero-cis muito solitário da época. Quase nos anos 2020, temos o quê? Muitos corpos femininos expostos, hologramas femininos construídos a partir dos sonhos (?) daquele mesmo homem solitário e um pouco desprezível.

Machismos a parte, a ideia central do filme e do remake/spin-off/follow-up é, basicamente: criamos esses robôs para a execução de tarefas que humanos não deveriam fazer, mas eles são capazes de sentir, pensar, sonhar… e até *spoiler*, que dilema [aham]! Possivelmente, era tudo uma alegoria de Philip K. Dick, para denunciar o tratamento que relegamos àqueles que não consideramos humanos.

Engraçado que não aprendemos nada com a indústria cultural, em breve, esse grupo dos não humanos (do qual, hoje, já fazem parte: negros, negras, mulheres, pobres, “traficantes” – essa grande ideia que a tudo abarca e que serve de desculpa para assassinatos em massa diários, sem grandes consequências – todos os habitantes de países subdesenvolvidos….etc.etc.etc., depende muito do referencial) vai se alargar ainda mais mesmo.

* Distrito 9 (2009) / Districto 9 (título original) – Diretor: Neill Blomkamp

Sinopse: Uma raça alienígena é obrigada a viver em condições equivalentes às de favelados/as na Terra. De repente, um agente do Estado é exposto à biotecnologia dessa raça e humano e alienígenas desenvolvem/descobrem uma afinidade.

Comentário:

Sim, outra alegoria para a luta de classes e tratamento precário e odioso contra pessoas consideradas menos humanas do que nós. Não, as pessoas não veem filmes, né? Se não, a gente já tinha virado esse jogo. Única explicação possível.

* Planeta dos Macacos: O Confronto (2014) / Dawn of the Planet of the Apes (título original) – Diretor: Matt Reeves

Sinopse: Uma nação de símios geneticamente evoluídos liderados por Caesar é ameaçada por um bando de humanos sobreviventes de um vírus devastador que foi liberado na década anterior.

Comentário:

Receita de sucesso:

1) Usar animais para experimentos científicos; cosméticos; genéticos; infecciosos

2) Relegar esses animais ao pior tratamento possível: após as sessões de tortura, eles ficam enjaulados e só conhecem os ambientes frios dos laboratórios

3) Algum experimento infeccioso de agentes biológicos dá errado e sai pela culatra na cara da humanidade que aprontou todo o experimento para começo de conversa

4) Uma das espécies de animais maltratados evolui, supera os humanos, dá um show de organização social, construção de laços comunitários e de solidariedade e de capacidade de autogestão 1000% sustentável

5) Os humanos sobreviventes tomam ciência desse maravilhoso estilo de vida e vão lá aprender com eles decidem que devem exterminar a espécie que está lá quieta, vivendo bem, sem incomodar ninguém, apenas porque sim.

NEM PARECE VEROSSÍMIL ISSO, NÉ? NEM METAFÓRICO. NEM ALEGÓRICO. E NÓS HUMANOS JAMAIS SERÍAMOS CAPAZES DE FAZER NADA PARECIDO, NÃO É MESMO?

* O Planeta dos Macacos (1968) / Planet of the Apes (título original) – Diretor: Franklin J. Schaffner

Sinopse: Um astronauta sofre um acidente aéreo (espacial?) e acaba em um planeta desconhecido onde símios inteligentes e falantes são a espécie dominante, enquanto os humanos são a espécie oprimida e escravizada

Comentário:

Esse filme é visionário em tantos níveis que eu sigo sem compreender como pode: meio século depois desse lançamento AINDA ESCRAVIZARMOS SÍMIOS E OUTROS ANIMAIS (zoológicos, aquários, circos…ABATEDOUROS). Certeza que nem todo mundo compreendeu a alegoria.

* O exterminador do futuro (1984)  / The terminator (título original) – Diretor: James Cameron

Sinopse: Um androide aparentemente indestrutível é enviado do futuro (2029 [tá chegando]) ao passado, 1984, para assassinar uma garçonete que será mãe do homem que vai liderar a humanidade em uma guerra contra as máquinas; ao mesmo tempo, um soldado dessa guerra também é enviado ao passado para proteger a moça, a qualquer custo.

Comentário:

Máquinas dominando o mundo: carros automáticos; empresas de tecnologia que estão a poucos passos de conseguirem ler nossos pensamentos, literalmente; dinheiro virtual; autoatendimento como meta ideal dessa fase cheirosa (fragrância estrume 3.0) do capitalismo (porque essa é uma ótima ideia #not).

Skynet vem aí. O mundo virtual já é preferência de grande parte das pessoas: quem poderia estar curtindo o mundo real? Nem a ricalhada está… não à toa, o consumo de drogas é alto nesses círculos. Lembram de um helicóptero cheio de cocaína que circulou por fazendas brasileiras aí durante um tempo? Certeza que seu destino não eram as consideradas “sarjetas” do país… Já previa Aldous Huxley, não é mesmo?

E desejo de aborto retroativo 3.0 (matar a mãe antes que ela possa engravidar) de líderes comunitários parece algo extremamente desejável para vários opressores no poder espalhados por aí. Embora eles consigam assassinar os/as próprios/as líderes depois de crescidos/as mesmo, sem consequências: #mariellepresentehojeesempre; Dorothy Stang; Chico Mendes; ativista Nilce de Souza Magalhães, em Porto Velho (RO); camponês Ivanildo Francisco da Silva, em Mogeiro (PB); indígena Clodiode Aquileu de Souza, em Caarapó (MS).

* A Ilha (2005)  / The Island (título original) – Diretor: Michael Bay

Sinopse: Um homem que vive em uma estéril colônia no futuro começa a questionar sua existência limitada, quando um amigo é escolhido para ir para a Ilha, o último lugar não contaminado da Terra. *Spoiler*: ricos vivem “para sempre” porque têm seus clones à disposição (na Ilha) para o caso de qualquer emergência médica – deu cirrose? Tira o fígado do clone e mata a cópia! Traumatismo craniano? Pega o cérebro do clone e mata a cópia! (;

Comentário:

Clonagens já estão em andamento no mundo científico há anos. Alguém duvida que os ricos e poderosos vão fazer exatamente como no roteiro de A Ilha? O que se busca nessa vida neoliberal individualista? Afastar-se da morte, da finitude, ao máximo. Que artifícios já existem para garantir esse afastamento? Não trabalhar escravamente – fazer com que pessoas pobres e desesperadas trabalhem escravamente para você – é estar mais próximo da vida eterna; ignorar que a maior parte das pessoas depende de sistemas públicos de saúde, saneamento e educação é fazer com que essas pessoas morram antes de você, de maneira relacional, isso também proporciona uma vida “mais eterna”… e por aí vai!

* Matrix (1999)  / The matrix (título original) – Diretoras: Lana Wachowski, Lilly Wachowski

Sinopse: Um hacker aprende sobre a natureza da realidade em que vive, quando entra em contato com rebeldes misteriosos que estão em guerra contra os controladores desse sistema.

Comentário:

Marx dá um sorriso em seu caixão toda vez que alguém entende Matrix e, consequentemente, a ideologia burguesa que a tudo captura e mitifica! Vejam o Cypher, por exemplo: o que ele mais deseja é esquecer de toda a realidade e voltar à vida de conformismo virtual e falaciosa que só a ideologia burguesa pode proporcionar. Para mim, é a personificação do glorioso “pensar dói”.

* Uma noite de crime (2013) / The purge (título original); Uma noite de crime: anarquia (2014) / The purge: anarchy (título original); 12 Horas para Sobreviver: o ano da eleição (2016) / The purge: election year (título Original) – Diretor: James DeMonaco

Cada sequência mostra um aspecto e um momento desse projeto.

**”Conter”, nesse contexto, significa: as pessoas têm 12h para dar vazão a todos os seus sentimentos ruins e se as empresas de segurança privada, cofres, etc. ganharem algum dinheiro com isso, é uma consequência inesperada; se a violência policial nos bairros pobres permanecer inalterada, também é um problema de outra frente; se essas 12h forem aproveitadas para assassinar lideranças comunitárias, a culpa não é do projeto, mas dessas pessoas que tiveram essa ideia; se apenas as pessoas ricas conseguem se proteger nessas 12h, é porque as pessoas que não têm esse dinheiro não trabalharam o suficiente para conseguirem se proteger também, afinal, basta querer que você também vai conseguir adquirir equipamentos de segurança que custam o equivalente a cinco helicópteros: É. SÓ. QUERER.

Comentário:

Temos um candidato à presidência (#EleNão #EleNunca #OsFilhosDeleTambémNão) que só não inseriu essa ideia em seu programa, porque seus eleitores/as não devem gostar de cinema que faz pensar (de novo, pensar dói).

* O preço do amanhã (2011)  / In time (título original) – Diretor: Andrew Niccol

Sinopse: No futuro, as pessoas param de envelhecer fisicamente aos 25 anos de idade. Contudo, são geneticamente modificadas para viverem apenas mais um ano. Ou seja, havendo “dinheiro”, você conseguirá viver o tempo que quiser com a aparência de um/a jovem. Um jovem pobre, menor de 25, encontra um homem rico que já vive há cerca de um século e se vê acusado de assassiná-lo. Isso desencadeia um entendimento global desse sistema e um desejo de lutar contra ele.

Comentário:

A grande sacada desse filme, também completamente marxista, é: não há dinheiro nesse mundo, há tempo. Seu salário vem em minutos ou horas e os ricos têm anos de vida guardados em bancos.

“Não é nossa culpa / Nascemos já com uma bênção / Mas isso não é desculpa / Pela má distribuição / Com tanta riqueza por aí, onde é que está / Cadê sua fração / Com tanta riqueza por aí, onde é que está / Cadê sua fração / Até quando esperar…” 

Referência: 

https://www.imdb.com/

 

Link do post: www.passadorama.com/tilt/listadefilmesdistopicos